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Planear o Destino?
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* por Fortunato Da COSTA

Já estava no Chade há mais de uma semana e continuava com os mesmos jeans e t-shirt, com que tinha saído de Lisboa, no início de Setembro de 2006. A Airfrance extraviara-me a mala da roupa e ainda não a tinha encontrado. Em Ndjamena, capital do Chade, ainda tentei comprar umas calças e uma camisa para poder ter um aspecto normal nas reuniões com o Governo Chadiano e com a Delegação da Comissão Europeia, mas… nada, nada me servia.

Impossível encontrar roupa para o meu corpanzil, naquele País. Só tinham a roupa tradicional muçulmana, uma espécie de lençol onde se enrolam… De maneira que durante a noite, o hotel lavava o que eu tinha, para eu estar asseado no dia seguinte.

E, não é que entretanto, recebo um telefonema da Delegação da Comissão Europeia do Egipto para me deslocar ao Cairo somente por causa de uma reunião de UMA HORA?!

Não tinha alternativa, tinha de ir. Antes de sair do Chade, acertei a data e a hora da reunião, por correio electrónico, para a tarde do dia da chegada. Assim, teria algum tempo para comprar roupa no Egipto, sobretudo aquelas fabulosas camisas de algodão, o tal melhor algodão do Mundo...

O que vinha mesmo a calhar porque teria tempo para ir ao City Stars no Cairo (é o mais espectacular Centro Comercial que eu conheço) comprar calças, camisas, gravatas para me reequipar e poder andar vestido em condições – Porque já não acreditava que a Airfrance me conseguisse encontrar a mala.

Lá fui eu de Ndjamena para Adis Abeba… num voo da Companhia Aérea da Etiópia; com escala de oito horas em Adis Abeba; e outro a seguir para o Cairo que deveria chegar às quatro e meia da madrugada do dia seguinte.

Chego ao novíssimo e magnífico aeroporto da Etiópia, na capital Adis Abeba e quando vou procurar uma ATM para retirar algum dinheiro local para poder passar o dia, descobri que não havia máquinas para levantar dinheiro no aeroporto, nem uma agência bancária para me ajudar. Por outro lado, não podia sair, pois não tinha Visto para sair da zona de passageiros em trânsito. Não tinha Euros, muito menos dólares americanos, porque no Chade também não existiam máquinas para levantar dinheiro. Só tinha cartões de crédito e de débito.

Tramado! Estava tramado e condenado a passar oito horas à fome e à sede, quem me conhece dirá que tenho “cabedal” para muito mais do que isso. Pois bem… resignei-me à minha triste sorte e comecei a passear calmamente pelo aeroporto quando… ouvi um “Pshiuu…!”.
Voltei-me e vi uma linda jovem Etíope com uns 20 anos que me chamou para ir visitar a sua loja de roupa.

Ela era linda e eu já estava com fome. De maneira que tive uma daquelas ideias que nem ao diabo ocorrem. Entro na loja, olho-a bem nos olhos e digo-lhe:

- “És a mulher mais linda que eu já vi em toda a minha vida!!” – mas disse-o tão convictamente que ela quase acreditou.

– “Não acreditas em mim? Então espera aqui que já vais ver…” – e saí disparado da loja dela, entrei numa loja de Duty Free, onde podemos pagar com cartão de crédito (mas onde só vendiam tabaco, perfumes, jornais...) e comprei um frasco de perfume Cacherel, Francês de setenta dólares Americanos.

Mandei-o embrulhar com fitinhas e corações e… voltei novamente à loja da Bela Etíope. Olho-a novamente nos olhos e repito:

– “Para te provar a minha admiração pela tua beleza, até te ofereço este perfume!” – e ela aqui, já acreditou.

A minha atitude tinha sido tão louca e espontânea que o passo seguinte poderia ser pedi-la em casamento. Ela iria aceitar de certeza. Mas, não… não foi isso que eu fiz.

Peguei-lhe nas mãos e coloquei o presente numa delas. Ela sorria extasiada… e então eu, calmamente, como quem tira uma pistola… saquei da Factura.

E com o ar mais triste do Mundo disse-lhe:

– “Este perfume custou-me 70 dólares, como podes aqui ver nesta factura! Vendo-to por cinquenta…” – e expliquei-lhe que tinha de esperar oito horas no aeroporto e não tinha dinheiro vivo, nem para um café.

Ela desmanchou-se a rir e disse-me que NÃO.

– “Quarenta e cinco e convido-te para almoçar …” – ela insistia no Não.

Ficámos nos trinta e cinco, no almoço e num beijo. Um beijo de amizade que ficou para sempre na minha memória, pelo favor que ela me fez.

O que nós somos capazes de fazer, quando a fome aperta…

Bem… embarquei novamente para dentro de um avião da companhia Ethiopian. O meu lugar era o 10C, corredor, mas já estava ocupado. Três volumosos Egípcios tinham-se ensanduíchado nos A, B, C e o do C, disse-me: “Posso ficar aqui? É que estes aqui são meus amigos…”.

“Rebentar para aí os três à vontade!” – pensei eu, egoistamente.

E dirigi-me a uma hospedeira dizendo que estava muito cansado e queria dormir – a ver se ela me arranjava uma fila de três assentos livres – para eu me esticar ao comprido e “bater uma soneca” até ao Cairo.

E assim, ela fez – as Etíopes são espectacularmente bem parecidas e amorosas – com um magnífico sorriso, colocou-me na cauda do avião, com três assentos só para mim. Eu estava feliz.

Faltavam cinco minutos para o avião descolar e quem é que entra pelo avião adentro?

A Equipa de Futebol completa do Egipto que tinha ido à Etiópia por causa de um torneio!

Lá se fora o meu sonho… Minutos depois chega um Egípcio, impecavelmente bem vestido e engravatado que me olhou lá de cima (não se esqueçam que eu já andava com os mesmos jeans e t-shirt há mais de duas semanas) e com um olhar fuzilante disparou:

– “Esse lugar É MEU!” – disse autoritariamente.

– “ERA!!” – ripostei eu.

– “Esse lugar É MEEEU!” – começou ele a berrar.

– “EEERA!!” – disse, enquanto abria o jornal Financial Times de braço a braço.

E como quem berra perde sempre a razão, as hospedeiras Etíopes obrigaram o engravatado a sentar-se noutro lugar. E eu – ainda hoje não sei porquê, tenho uma ideia, mas vai contra as regras da humilde modéstia – fiquei com os três assentos só para mim.

Durante toda a viagem o engravatado foi mandando ameaças e bocas, do género:

– “Vais ver quando chegares ao Cairo…” – enquanto espumava, entre dentes.

O avião aterrou e eu levantei-me. Ele ainda estava sentado, aproximei-me:

– “Então ainda me queres matar?…” – perguntei, meio a brincar.

– “Eu não mato ninguém. Sou MÉDICO, sou o Médico da Equipa de Futebol!” – disparou ele.

Estendi-lhe a mão:

– “Fazemos as pazes?!” – perguntei.

– “Nós Egípcios somos conhecidos pelo nosso temperamento, mas tu? De onde é que tu és?” – perguntou enquanto apertávamos calorosamente as mãos.

– “Eu sou PORTUGUÊS!” – atirei com um sorriso.

– “Haaaa… agora já percebo! Pois… ” – concluiu ele, com outro sorriso, confirmando a nossa Lusa reputação.

Estava estourado, praticamente 48 horas sem dormir… cheguei ao hotel, no Cairo, por volta das seis da manhã e atirei-me de bruços para cima da cama, sem mesmo me despir. Pensando que iria dormir até ao meio-dia, depois iria comprar roupa, e assim estaria em condições para a reunião do final da tarde.

Às nove e meia toca o meu telefone portátil:

– “Estamos à sua espera para a reunião, desde as nove da manhã!!” – alguém disse do outro lado sem eu, ainda, tão pouco, saber onde é que estava, se sonhava, ou estava acordado.

– “Haan??... Como? Então?… Mas, a reunião não estava marcada para as 17 horas?” – perguntei.

– “Não, foi adiada para as nove desta manhã, não leu o e-mail?! É que como não disse nada…” – ripostou, com a razão já do lado dele.

O e-mail fora-me enviado enquanto eu estava dentro de aviões e como eu não tinha respondido… a máxima aplica-se: quem cala consente.

– “O avião acabou de aterrar e eu preciso de uma hora para me preparar e chegar aí…” – argumentei.

E uma hora e meia depois (tinha-me esquecido da loucura do tráfico no Cairo), lá estava eu, ainda, com os meus jeans e t-shirt, na Delegação da Comissão Europeia do Cairo, em frente a um grupo de vinte pessoas que me olhavam com ar absolutamente incrédulo…

Contei-lhes a verdade nua e crua: dizendo-lhes que o consultor de jeans e t-shirt que eles tinham em frente deles, era um exemplo vivo de um mau planeamento, pois todos aqueles incidentes que me aconteceram, não o teriam sido, certamente, se eu tivesse planeado cuidadosamente as minhas viagens.

E a reunião foi um sucesso! Os objectivos foram atingidos!

Depois, durante a tarde fiz as minhas compras, quatro calças, quatro camisas, sapatos, gravatas, e tudo o resto. Mas, acreditem… que exactamente depois de sair do City Stars, recebi um telefonema da Airfrance no Chade a dizer que a minha mala da roupa já tinha chegado a Ndjamena :-(

Mas, a maior desgraça ainda estava para acontecer. Quando no dia seguinte vou para apanhar o voo de regresso do Cairo para o Chade, cheguei ao aeroporto e o avião estava superlotado, não tinham lugar para mim. Acabei por ficar mais uma semana, à força, no Cairo até me conseguirem um lugar de regresso.

Realmente, tanta desgraça junta pode-se justificar com a tal Falta de Planeamento. Mas, em vez disso, poderíamos dizer: “Há dias que não vale a pena sair de casa!” ou “O Azar nunca vem só!”.

Não serão também estas trapalhadas todas que nos fortalecem o intelecto e nos temperam a Vida?!

Portanto, planear é extremamente importante nos negócios, na nossa actividade profissional e até na nossa vida pessoal.

Mas, não se esqueçam de deixar um pouquinho ao Destino ;-)

Burundi, Dezembro 2007

Todos os Direitos de Propriedade Intelectual pertencem a:

Dr. Fortunato Da COSTA
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(*) Dr. Fortunato Da COSTA, Mestre em Estudos Europeus pelo Instituto de Estudos Europeus, Licenciado em Administração Pública e Bacharel em Engenharia é Consultor Internacional Perito em Arquitectura Organizacional e Sistemas de Informação, Empresário, Professor, Formador, Orador em Palestras e Conferências, Escritor, Director da Fitini.NET ConsultinG, podendo ser contactado pelo e-mail: fitini@fitini.net. Visite: Fitini.NET ConsultinG

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