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Viagem ao Fim do Mundo

* Por Fitini Zini, 12/2006 in Chad

Setembro de 2006, parto de Lisboa para Paris, num voo Airfrance. E, noutro de Paris para Ndjamena, a Capital do Chade, com a duração de seis horas extremamente cansativas, pois ia apinhado de gente.

A minha missão era chefiar um projecto de informática para mais uma missão da Comissão Europeia, agora junto do Ministério das Finanças no Chade.

Como habitualmente, gosto de viajar de jeans, t-shirt e sapatilhas. Assim, cheguei a Ndjamena, num Domingo por volta de 20:00, onde me aguardavam um calor insuportável e mosquitos que nem à chapada desandavam.

Quando vou para passar a alfândega, o polícia perguntou-me pelo VISTO. Ao qual eu respondi que em Lisboa não fora viável, e como em todos os Países por onde viajo foi sempre possível, pensava obtê-lo no próprio aeroporto.

E a “tourada” começou, fui levado ao chefe da polícia do aeroporto:

– “Sem Visto não entras e voltas já no mesmo voo para Paris!” – disse com um Francês macarrónico.

– “O quê? Eu… eu venho numa missão da Comissão Europeia para ajudar o vosso País!?? E em todos os Países por onde viajo, é sempre possível fazer o Visto no Aeroporto!!?” – ripostei eu.

– “Se não tens Visto, voltas já no mesmo voo para Paris” – acompanhou com um sorrisinho de hiena.

Peguei no meu telefone portátil e descobri que a TMN não tinha roaming no Chade. Voltei-me para a esquerda e para a direita, fiz duas piruetas e consegui apanhar um pedacito de rede a partir do País fronteiriço, os Camarões, mas não chegava. Teve de ser o chefe de escala da Airfrance a emprestar-me o telemóvel.

Telefonei para a Delegação da Comissão Europeia em Ndjamena e lá consegui que o guarda de serviço (pois eram 21 horas de Domingo) fizesse com que o Charles Coste, da Delegação em Ndjamena, me telefonasse de volta para falar com o chefe da polícia do aeroporto.

Imploraram o Charles Coste, o director da Airfrance, o chefe de escala da Airfrance, funcionários do ministério das finanças e da defesa, … mas nada:

“Sem Visto não entras e PRONTO, VOLTAS JÁ PARA PARIS!”.

– “A minha bagagem? Preciso de apanhar a minha mala” – ainda consegui dizer.

A minha bagagem não tinha chegado. A companhia aérea tinha extraviado a mala.

E, lá fui eu de volta para Paris.

Seis horas depois, cheguei à capital Francesa e mal liguei o telemóvel recebi um telefonema da Embaixada do Chade em Paris:

– “Doutor Da Costa, pedimos muitas desculpas, por o que se passou ontem à noite no aeroporto em Ndjamena. Por favor, venha imediatamente à nossa embaixada que lhe fazemos o Visto imediatamente” – disse-me um funcionário verdadeiramente preocupado com o que sucedera.

É que o Charles Coste, em Ndjamena movimentou-se de tal forma, junto das autoridades que até enviaram um fax para a Embaixada do Chade em Paris a protestar violentamente com o que aquele “anormal” do chefe da polícia tinha feito. E, realmente, duas horas depois já tinha o Visto no passaporte.

Antes de apanhar novamente o voo de regresso para Ndjamena, fui à Airfrance no aeroporto reclamar pela minha bagagem. E fiquei a saber que afinal a minha mala ainda nem tinha saído de Lisboa. Mas, disseram-me para ficar descansado pois, ela iria chegar no dia seguinte, ao Chade.

Seis horas depois, cheguei, outra vez, a Ndjamena. Mas, desta vez, já com o Visto. O mesmo chefe da polícia, agora, a tentar verificar se o mesmo era verdadeiro (?). Ainda fez um telefonema para confirmar, pois o “animal” não conseguia perceber como é que eu tinha conseguido, em poucas horas, um Visto que a embaixada em França leva uma semana a fazer…

A minha bagagem, mais uma vez, não tinha chegado.

Fiz o check-in no hotel, dormi uma meia dúzia de horas e, nos meus jeans, t-shirt e sapatilhas, apresentei-me na Delegação da Comissão Europeia.
Fui recebido espectacularmente – essencialmente Franceses, Belgas, um Espanhol – todos lamentavam as minhas três viagens de seis horas cada, sem parar. E a quem eu ia, educadamente, pedindo desculpas por estar de jeans, pois a minha mala tinha-se extraviado.

Fui especialmente bem acolhido pelo Jean-Claude Courau, pai da famosa actriz Francesa Clotilde Courau – “Rainha de Itália” caso lá existisse monarquia, ela é pois a Princesa de Savoie, de Venise e de Piémont por estar casada com o “Rei de Itália” o Príncipe Emmanuel Philibert de Savoie, "Prínce de Savoie, de Venise et de Piémont" – e pelo Charles Coste que se vieram a revelar Grandes Amigos e os quais jamais esquecerei. Ambos Homens de grande cultura, experiência e conhecimento profundo da realidade Africana. O Charles Coste possui, ainda, uma extrema e fina sensibilidade nas relações humanas que só os experientes diplomatas conseguem refinar. Ele é, pois, uma das chaves de sucesso na boa relação de cooperação da União Europeia com aquele País no coração de África, o Chade.

Pois bem, iniciei a minha missão de jeans e, uma semana depois, ainda continuava com os mesmos jeans… a Airfrance ainda não tinha enviado a minha mala de Lisboa para o Chade.

Eu de nome Fortunato – o Jean-Claude Courau na brincadeira chama-me “Fortuné”, ou seja “SOURTUDO” – há já uma semana que andava com os mesmo jeans e t-shirt, pois no Chade, era completamente impossível comprar roupa para o meu corpanzil.

Felizmente que a minha mala acabou por chegar e lá se resolveu o problema.

Passámos por momentos hilariantes naquela missão. Por exemplo, no dia em que o Jean-Claude Courau chegou com um ar cansado e me disse:

– “Já fiz a minha Boa Acção do dia. Consegui pôr na rua todas as galinhas que andavam a pastar na sala do server IBM AS/400, lá no departamento dos pagamentos” – rimos até às lágrimas.

A forma sincera como ele disse aquilo, foi espantosamente cómica. É que na realidade, a sala do servidor daquele departamento costuma por lá ter galinhas...

Outro momento saboroso foi quando o nosso colega Bretão, Claude Sablé, um dia trouxe de avião ostras fresquinhas da Bretanha. Foi especialmente divertido comê-las vivas, como é habitual, e regadas com champanhe bruto, geladinho. Sobretudo, porque jantámo-las no meio de África debaixo de uma noite tórrida, num restaurante onde os demais clientes nativos olhavam para nós e pensavam: “coitados destes brancos, estão tão loucos que até chupam pedras…”.

Mas, uma certa manhã, estava calmamente a trabalhar no Ministério das Finanças quando chegou o Charles Coste:

– “Fortunato! Arruma as tuas coisas que temos de recolher imediatamente, pois VÊM AÍ OS REBELDES!” – disse-me em tom alvoraçado.

Eu, fiquei estupefacto… sem acção.

– “FORTUNAAATOOO?! Segue-me com o teu jeep, pois temos de recolher imediatamente os nossos colegas consultores europeus, pois VÊM AÍ OS REBELDES!!” – disse-me em tom ainda mais estridente.

– “Afinal, parece que não sabes que o Chade está em estado de guerra com guerrilheiros vindos do Sudão? O Presidente da República decretou o recolher obrigatório, pois os guerrilheiros estão a cem kilómetros da Capital” – continuou.

Bem… eu dei um salto da cadeira, guardei o meu computador num ápice, meti-me dentro do meu jeep e fui atrás do “todo-o-terreno” do Charles para recolhermos os nossos colegas Europeus. E, realmente era verdade, as ruas estavam cheias de carros militares, tanques de guerra, um alvoroço desgraçado, parecia que estávamos no meio de filmagens de um filme de guerra de Hollywood…

Os telemóveis, só funcionavam de vez em quando… e a electricidade também.

O barulho era ensurdecedor: os helicópteros, os Caças Mirages Franceses a voar em voos rasantes junto ao hotel e a patrulhar Ndjamena, rockets, tiros, um inferno.

A força aérea Francesa está presente no Chade, onde têm cerca de 2000 homens, e cujas chefias estão hospedadas no mesmo hotel onde me encontrava, o Novotel. Nesse aspecto estávamos seguros, pois os rebeldes jamais atacariam os militares Franceses, se bem que um ano antes tivesses tentado invadir essas instalações.

E aí percebi porque é que no Chade estávamos proibidos de nos deslocarmos a pé, só de viatura. Pois os problemas de segurança eram evidentes.

Controlei a situação, mentalmente! Não queria alarmar a minha Família, embora todos soubessem onde me encontrava. Ainda cheguei a enviar um email para a SIC notícias a relatar os factos, mas eles parece que se estão completamente nas tintas para o que lhes chega via Internet.

Em todo o caso, consegui telefonar para ao meu grande amigo, o médico Dr. LAI YUN FEE, a quem contei o que se estava a passar e a quem disse que “se dentro de 24 horas eu não voltasse a telefonar… para alertar a minha Família”, pois, certamente qualquer coisa de errado me teria acontecido.

Felizmente, a missão foi um sucesso e tudo correu bem. Em Dezembro de 2006, já estava de volta à nossa calma Europa.

A Vida, reserva-nos surpresas destas… só quando estamos no fim… lá bem no Fim, é que percebemos que lá chegámos.

Afinal… estava no Fim do Mundo e, ironicamente, só depois de lá estar, é que percebi que lá tinha chegado.

Estarmos atentos e informados… é fundamental para continuarmos vivos.

;-)

Ndjamena CHADE, Dezembro/2006

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Dr. Fortunato Da COSTA
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(*) Dr. Fortunato Da COSTA, Mestre em Estudos Europeus pelo Instituto de Estudos Europeus, Licenciado em Administração Pública e Bacharel em Engenharia é Consultor Internacional Perito em Arquitectura Organizacional e Sistemas de Informação, Empresário, Professor, Formador, Orador em Palestras e Conferências, Escritor, Director da Fitini.NET ConsultinG, podendo ser contactado pelo e-mail: fitini@fitini.net. Visite: Fitini.NET ConsultinG

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