Os Crepe Suzette
Certa vez fui convidado pelo Presidente da Câmara
de Foxan para uma visita de dois dias à bela província Chinesa
anexa à de Guangdong.
Levei comigo três amigos, dois Franceses o Christian
e o ToZe e um Macaense o Mário.
Atravessámos a fronteira Macau-China em Zhuhai.
Eram umas dez da manhã e decidimos os quatro ir tomar o pequeno
almoço na cidade Chinesa de Zhuhai.
Depois de passarmos uma interminável barreira
de mendigos organizados e controlados pelas seitas Chinesas: crianças,
mães de bébés ao colo, velhos, prostitutas menos afortunadas,
defecientes de toda a espécie - mal se entra em qualquer fronteira
Chinesa por onde entram turistas, temos estes grupos de gente agressiva
que nos persegue, rouba por esticão, puxa pela braço por
vezes com rudeza, se não mostramos uma total insensibilidade não
param de nos perseguir e coitados dos turistas que manifestam alguma sensibilidade,
se dão qualquer coisa a um, são depois assaltados literalmente
por centenas de outros.
Dada a nossa experiência - o facto de todos nós
sabermos um mínimo de Cantonense suficiente para dissuadir quem
quer que fosse: "Desaparece", "Pira-te", "Daqui não levas puto",
... entre outros mimos piores, associado à nossa capacidade física
que só por si era um factor desmotivador suficiente - tudo isto
fazia-nos passar quase por pseudo-Chineses: os "Kuai-Lou", traduzido à
letra os "Diabos Brancos", termo pelos quais os Chineses chamam os Ocidentais
que vivem em Território Chinês, o nosso caso.
Escolhemos um bar-restaurante novo e de traços
ocidentais, típico do Sul da China, como em Hong Kong e Macau.
O menu estava em Inglês e Chinês. Eu pedi
café aguado estilo Americano (na China desconhecem quase o pão
e o café e muito menos o nosso café latino concentrado) e
French Toast (uma fatia de pão-dourado feito na hora, onde
se pôe manteiga e depois mel, o nome é curioso e para os Franceses
não lhes diz nada, assim como as French Fries, batatas fritas
também não lhes dizem nada).
Os meus amigos pediram também café, torradas.
Mas o azarado do Christian teve a ideia de pedir Crepes Suzette.
(os Franceses adoram crepes).
Aqueles Crepes Suzette puzeram o cozinheiro quase
maluco. O coitado não sabia fazer aquilo. Aliás, provavelmente
nunca ninguém na vida lhe pediu para fazer tal coisa.
Todos bebemos o nosso café e comemos as torradas
e french toasts. Ao fim de uma hora estávamos todos satisfeitos...
menos o Christian.
Tivemos que esperar mais uma hora pelos Crepes Suzette.
Mas, quando vieram estavam óptimos, provavelmente alguém
os trouxe a correr de bicicleta de um hotel de cinco estrelas qualquer,
ou talvez tenham passado a fronteira vindos de um restaurante de Macau.
Moral: se estiverem com pressa deixem as Suzettes em paz
enquanto estiverem na China.
Por sugestão do Mário cada um de nós
levava uma ou duas garrafa de Conhaque e Armanhaque. Dizia ele que estas
eram das ofertas mais preferidas dos Chineses.
E sobretudo Francês, Remy Martin e outros do género.
Saimos do Zhuhai por volta do meio dia.
Na Repúplica Popular da China conduz-se pela direita,
em contradição com Macau e Hong Kong, onde os Britânicos
impuzeram a condução pela esquerda.
Os Chineses têm muito menos regras de trânsito
que os Ocidentais e algumas são o oposto das nossas, por exemplo:
numa via rápida têm prioridade os veículos que entram
e não os que já lá estão. Sendo normal verem-se
carros e camionetas paradas no meio da estrada de capô aberto, ou
porque alguém se lembrou de bater uma soneca. Nas ultrapassagens
é normal os carros que vêm em sentido contrário afastarem-se
quase para fora da estrada para deixar passar o que vem de frente em ultrapassagem.
Uma vez em Hainan (uma ilha Chinesa em frente ao Vietnam) numa estrada
de uma faixa de rodagem e dois sentidos, iamos fazer mergulho com garrafa
na parte sul da ilha e atravessámos a ilha porque o aeroporto ficava
na parte norte. Acreditem que a camioneta em que fomos, uma certa vez fez
uma ultrapassagem em plena curva e precisamente em sentido contrário
vinha outro carro a ultrapassar. Quatro carros em paralelo numa estrada
onde só podiam passar dois. Dois dos carros sairam um pouco fora
da estrada e todos passaram, em plena curva. Bem, eu apanhei um grande
susto, mas o condutor e os outros Chineses foi como se nada tivesse acontecido,
era normal para eles.
A verdade é que menos regras levam os condutores
a estarem mais atentos e a não acreditarem cegamente num semáforo.
Curiosamente a percentagem de acidentes é bastante mais baixa que
nos Países Ocidentais.
Muitas planícies, montes verdejantes e algumas
aldeolas junto à estrada que por sinal era de boa qualidade. Viajámos
ainda assim umas três horas de carrinha até chegarmos ao encontro
com a Câmara de Foxan.
Como é natural ficámos num hotel do estado
Chinês. Fora das Regiões Económicas Especiais (Macau,
Hong Kong e as Zonas Aduaneiras às antigas colónias europeias)
o Estado Comunista continua a manter uma forte pressão sobre a economia.
Pela tarde, entramos na Câmara de Foxan. Um simpático
e risonho presidente de pequena estatura, com sessenta e tal anos foi o
nosso anfitrião.
Levou-nos a visitar vários edificios. Mostrou-nos
maquetas, plantas de projectos e alguns terrenos. O seu objectivo era precisamente
convidar investidores estrangeiros para financiarem os projectos de construção
civil do município, sobretudo hotéis, parques de diversões,
campos de golf e resorts turísticos.
Obviamente que estávamos perante investimentos
de alto risco, onde colocar o capital poderia significar nunca ver nenhum
dinheiro de retorno.
Nessa noite, fomos convidados para jantar num restaurante
do hotel de cinco estrelas mais chique da cidade. Um curioso restaurante
de comida pseudo-ocidental.
Era uma mesa para doze pessoas, nós os quatro
e oito Chineses da câmara de Foxan.
De repente, as garrafas de conhaque apareceram em cima
da mesa e o presidente encheu doze grande copos altos, com o conhaque.
Eu e os meus colegas ficámos de boca aberta, pois iamos fazer um
brinde gigantesco de conhaque com o estomâgo vazio.
E assim foi. Na realidade, os Chineses que simplesmente
bebem chá quente com as refeições - e mesmo durante
todo dia, substituindo desta forma a água - em ocasião de
festas não é com vinho que acompanham as refeições,
é com conhaque e em copos de trinta centímetros cúbicos.
Bom, ao fim de meia hora estavamos todos já rosados.
Meio litro de conhaque com o primeiro prato, era obra.
Levanto-me e digo em Francês para os meus colegas:
"Vamos acabar com eles pessoal" - Ao mesmo tempo que
faço um brinde para todos, claro que isso obrigava a que todos se
levantássem para beber o copo até ao fim, sem parar.
A verdade é que nós Europeus estamos geneticamente
mais preparados para absorver conhaque e assim foi. Com mais de um litro
de conhaque no corpo só nós nos aguentávamos ainda
de pé. Os oito Chineses, vermelhos e com as orelhas a latejar, já
não se conseguiam levantar para os brindes. Para além de
rirem a bandeiras despregadas. Foi bastante divertido!
Por fim lá conseguimos mandar vir café,
claro depois dos morosos esclarecimentos sobre como explicar aos criados
o que era café (aliás a palavra CAFÉ não tem
tradução para o Chinês, eles também dizém
CÁFÊ).
O ToZe teve uma saida hilariante. Lembrou-se de explicar
aos Chineses como é que nós bebemos conhaque. Calmamente,
foi dizendo que depois de uma grande refeição se bebe café
e que o conhaque serve para acompanhar o café, sendo até
usual deitar um pouco de conhaque na chávena do café (no
caso eram de chá).
E todos nós seguimos o exemplo do ToZe.
O presidente da Câmara de Foxan, achou que devia
fazer qualquer coisa, perante tão imponente e surpreendente sabedoria
Ocidental...
E não fez mais nada: pegou na chávena do
café e deitou-a toda para dentro do copo de conhaque que teria ainda
uns vinte centímetros cúbicos de Remy Martin.
Os Chineses seguiram o exemplo do presidente... e beberam,
com um ar sofrido.
Acabámos todos, nós e os Chineses, numa
risota sem fim e quase abraçados uns aos outros.
Depois fomos todos juntos para um Night-Club relaxar.
O Night Club era no próprio hotel do restaurante.
Foi praticamente sair de uma porta subir uma ampla escadaria e entrar noutra.
Música ocidental, luzes psicadélicas, mulheres
bonitas por todo o lado... o normal em ambientes destes.
Eu mandei vir um seven-up pois estava enjoado.
"O que achas daquela miúda lá ao fundo?
Naquela mesa sozinha?" - Segredou-me o Christin ao ouvido.
"Sim, bem bonita! Um pouco triste e sonolenta, mas muito
bonita!" - Digo-lhe eu.
"Vou meter conversa com ela..." - E o Christian desapareceu
por entre as mesas.
Passado um pouco, aparece-me o Christian com um ar alucinada
a esbracejar por todo o lado.
"Putain! Falei com ela e mandei vir duas Coca-Colas,
não sei o que é que ela disse ao empregado mas ele trouxe
uma Coca-Cola e um cálice de conhaque. Ela bebeu o conhaque de um
trago e de repente aparece o criado com outro. E ela fez o mesmo, de um
só trago bebeu o outro cálice... eu tive que fugir." - O
Christian estava desesperado.
O pobre do Christian pagou US$100 pelos dois conhaques
da Bela Adormecida.
Moral: deixem as Belas Adormecidas, adormecer até
deixarem de ser belas, sobretudo quando se calhar até se chamam
Suzettes.
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