Uma Grande Criada
Quem disse que os Chineses são baixinhos? Isso
era dantes, a partir da altura que a MacDonalds invadiu a China, eles começaram
a crescer também.
Não é verdade, os Chineses do norte - por
influência de étnias nórdicas, Mongóis e outros
povos - são bastante mais altos que o típico Chinês
do Sul da China, o Cantonense. E os Chineses nórdicos têm
também a tez mais clara e até na alimentação
são diferentes. Os do Sul têm uma alimentação
mais condimentada e saborosa. Tive oportunidade de várias vezes
verificar isso entre muitos outros aspectos nas minhas variadas viagens
às mais importantes cidades Chinesas.
As minhas filhas sempre tiveram criadas Filipinas. Por
várias razões, o facto de falarem um Inglês perfeito,
serem muito meigas e divertidas para as crianças, para além
de serem o Povo mais Latino e Musical de toda a Ásia, as normas
alimentares são bastante similares às de qualquer ocidental,
rematando com o facto de serem Cristãos Católicos mais ferrenhos
do que a maioria dos Ocidentais Cristãos.
A minha filha mais nova antes de aprender a andar, a
criada Filipina ensinou-a a dançar. Era muito cómico, punha-se
música ou a simples televisão e ela, pequenina com meses,
sentada no chão torcia-se toda ao ritmo de qualquer música.
Mas desta vez decidimos arranjar uma nova criada Chinesa.
Alguns anos antes tivemos uma senhora Chinesa como criada.
Era uma boa cozinheira. Um dia arranjou outra oportunidade na vida e saiu
de Macau.
Era curtida, tinha a mania da limpeza, desmontava peça
a peça: fornos, fogões, torradeiras, ventoinhas, ... e um
dia um ar condicionado. Tinha um génes de engenharia algures. O
meu pai dizia "Por favor, segurem-na bem, não vá ela querer
limpar-me a careca um dia destes...".
E assim, um belo dia chegou a nova Ciada Chinesa.
Um metro quase e oitenta, bem constituida, fisicamente
era interessante como mulher. Calma pessoal, tinha uma cara masculina de
meter respeito. A rapariga teria para aí uns vinte e tal anos, mas
uma capacidade de decisão impressionante.
Era esse o grande problema dela. Diziamos-lhe uma coisa
e ela fazia outra.
A minha mulher começou a ter medo de falar com
ela, pois ela fazia umas expressões estranhas quando recebia ordens,
sobretudo porque a diferença de alturas não dava. A patroa
vinte centímetros mais abaixo a dar ordens para a "estratósfera",
por vezes a comunicação não chegava bem lá
acima.
Tinhamos na altura um Dálmata chamado Zero, tinha uma bola preta à volta de um olho e por mais que lhe tentássemos ensinar qualquer coisa o desgraçado nunca aprendia, daí o nome Zero (à esquerda). O Zero era um cão cheio de energia, tinha a minha filha do meio uns quatro anos e a pobrezinha de vez em quando andava a cavalo no Zero mesmo sem ela querer. O Zero vinha a correr de um canto da sala e cada vez que se encontravam ele metia a cabeça por baixo dela e lá ia a criança. Era um problema. Mas ela facilmente resolveu a situação quando o via a correr ficava quieta ou agarrava-se a qualquer coisa.
Bom, para dar banho ao Zero era praticamente uma sessão de luta livre. Mas a nova criada, com o seu metro e oitenta conseguia estourar com o arcabouço do Zero sem problemas.
A verdade é que sempre pensámos que com
o tempo ela aprendesse o que queriamos.
Certo dia, uma Sexta-Feira feriado, ponte para o fim-de-semana,
fui a Mercado Vermelho de Macau. Um mercado tipicamente Chinês onde
os peixes são cruelmente cortados ao meio ainda vivos, ficando o
peixeiro com um ar de felicidade atrás de uma bancada de meios peixes
com os corações ainda a palpitar. Onde as codornizes, rãs
e outros animais são esfolados vivos e introduzidos aos saltos mas
sem pele em sacos de plástico, para os felizes clientes levarem
os pobres animais "frescos".
Crueldade? Costume? Seja lá como for é
chocante para quem gosta de animais.
Bom, comprei umas cinco lagostas de um quilo e meio cada
uma.
E fui todo contente para casa pensando "agora chego lá,
vou cozer três lagostas com sal, deixo-as a arrefecer, depois vão
para o frigorífico e logo ao jantar vamos todos adorar lagosta com
maionese e uma salada russa".
E assim foi, arranjei duas panelas e comecei a preparar
as lagostas.
Qual não é o meu espanto quando vejo a
criada Chinesa a olhar para aquilo que eu estava a fazer e a rir-se a bandeiras
despregadas.
Riu-se do facto de eu ter somente passado as lagostas
por água e por colocá-las em panelas com água e sal.
E mais se riu quando depois eu as coloquei no frigorífico.
Bem, quando descobriu que iamos comer as lagostas frias... aí só
faltou rebolar-se no chão.
Eu comecei a ficar farto. Respeito os costumes dos outros
povos, mas quando se começam a rir dos meus... salta-me a tampa
em três tempos.
Ainda assim, decidi dar-lhe uma oportunidade, pensei
que talvez ela tivesse alguma receita tão especial para a lagosta
que tornasse o nosso acepipe "Lagosta ao Natural" hilariante.
Assim, no dia seguinte, sábado, disse-lhe no pouco
Cantonense que sei, para ela fazer as outras duas lagostas à moda
dela para o almoço.
Bom, foi gengibre, molho de soja... penso que foram todos
os temperos possíveis e imagináveis da cozinha Chinesa. As
lagostas foram partidas aos bocados e misturadas com aquilo tudo.
Fomos para a mesa. Sabem a que sabiam as Lagostas Quentes?
Sabia a peixe? Não.
Sabia a marisco? Não.
Sabia a qualquer animal marinho? Não.
Sabia a Carne! Mas carne com gosto a mato!!
Estão a ver o gosto do javali selvagem? Aquele
gosto adocicado desagradável?
Exactamente sabia a javali selvagem mal preparado.
Não foi tarde nem foi cedo. Acabou-se naquele dia a Criado Chinesa, nem três semanas trabalhou para nós, demos-lhe o salário de dois meses e acabou-se.
Jamais eu trocarei "Lagosta fria ao Natural" por Lagosta
Quente a saber a javali quente e mal preparado. E ai de quem se rir da
minha opção... é despedido em três tempos!
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