A Partida
A minha aventura fantástica no Mundo MZ*1 começou
naquela bela manhã na cidade de Lisboa, tinha eu onze anos em 1970. Fui com a minha mãe
e com o meu irmão apanhar vacinas. Aquelas torturas eram necessárias.
Sem elas podiamos ficar com malária, febre amarela, febre tifóide,
...
Foi uma experiência sem graça. Berrámos que nos
fartámos. E já o médico dizia: "Minha senhora, leve-os
já para MZ*1... eles lá podem abrir as goelas à vontade".
Por fim, como prémio de tanto sofrimento, recebemos um livrete amarelo
cada um - o livrete das vacinas - deviam era ter-nos dado, pelo menos,
uma enciclopédia.
O certo é que alguns dias depois recebemos permissão
das autoridades para partir. Foi emocionante, finalmente entrámos
naquela magnífica Aeronave que nos iria levar naquela grande viagem.
Realmente ser Navegador, real ou virtual, é um pouco aquilo que todos nós fazemos durante a Vida. E foi dentro desta nave que começou a minha carreira de Navegador, mas só muitos anos mais tarde vim a perceber isso.
"Mãmã quero fazer chichi!" - Esta célebre frase ecoou dentro daquele gigante tubo de aço, vezes sem conta. O meu irmão parecia que estava roto. E eu não podia deixá-lo sozinho. De maneira que cada vez que ele abria a boca, dez minutos depois abria eu. A minha mãe, uma bela Beirã, ia dando em doida. Só sei que por fim já não havia água nos sanitários, foi cómico à brava.
A trajectória seguida pela aeronave foi bastante linear e, no meu modesto entender de então, nada de anormal se passou. Para uma viagem entre dois Mundos, PT e MZ*1, até nem foi difícil. Claro, houve alguns abanões... mas para um experiente passageiro da Carris, a viagem foi mesmo bastante calma. Sobretudo foi agradável e até sensualmente excitante pois as miúdas de bordo, as hospedeiras, eram novinhas em folha e 'boas-como-o-milho'... É pena, pois já não podemos dizer o mesmo hoje em dia, eles estão sempre a renovar as aeronaves mas as hospedeiras são sempre as mesmas, e agora andam acompanhadas dos pais e dos maridos. Um dia destes têm de alargar os corredores para o pessoal de bordo poder andar de Cadeirinha-de-Rodas.
Comer? Bem o meu irmão não comeu nada. E eu comi tudo. "Nada se perde tudo se transforma?" Qual... tudo se aproveita!! Isso sim.
O breu da noite chegou mais rápido que o normal,
mas finalmente, e no meio daquela excitação toda, lá
conseguimos os três dormitar qualquer coisa.
Muitas horas de voo depois, e mais uns tantos solavancos,
copos de água, chichis, e... sei lá mais o quê. Acabámos
por aterrar numa vasta cidade, com casitas espaçadamente semeadas
ao desbarato, numa planície sem fim. A cidade separava o Oceano
Índico de uma floresta gigante, com árvores e vegetação
impenetrável.
"Já chegámos a MZ*1?" - Perguntei à
minha mãe. E, como não podia deixar de ser, do outro lado
ouviu-se o "eco" emitido pelo meu irmão - "Mãmã, já
chegámos a MZ*1?"
"Sim meus amores... chegámos, e o Papá
já deve estar à nossa espera." - Disse minha Mãe em
som 'estereofónico', com o arregalar de olhos e o acenar de cabeça
tão característico nela.
Nós os dois, feitos loucos, quase que saíamos
pela janela, tipo escotilha de navio...
O dia estava quente, abafado mesmo. Embora junto ao mar, nem uma simples brisa oceânica soprava. O astro solar brilhava intensamente, e não se via uma nuvem no céu. A luz do dia era tão forte que tudo era branco naquela bela cidade de BEIRA.MZ*1. Iria precisar de algum tempo para me adaptar àquele sol.
Lá estava o meu Pai, feliz. Todos nos abraçámos
com emoção. Uma lágrima aqui e ali, entre gargalhadas
e sorrisos de satisfação... abraços e beijos sem parar.
A alegria era tanta que até doia.
É quando um Pai, ou uma Mãe, partem para
longe da Família que compreendemos que a infelicidade também
existe. Pior do que isso é quando a própria Famíla
se quebra: Pai para um lado e a Mãe para o outro. Nessas situações,
o egoísmo e o orgulho dos Pais são tão grandes que
nem percebem que estão a dar a primeira grande lição
de infelicidade aos filhos. Só muitos anos mais tarde os 'tarados'
se apercebem da pobre lição de vida que deram aos frutos
do seu desvaneio erótico. Só que aí já é
tarde, o tempo não pára e não dá segundas oportunidades.
Mas, será que as pessoas já se esqueceram do verdadeiro sentido
da Vida? E o meu caro leitor, por acaso sabe qual a resposta? É
tão simples: Vivemos simplesmente para gerar mais Vida! Sim, manter
a espécie humana é a principal razão da nossa existência.
Tudo o resto é secundário. E é quando nos esquecemos
deste simples facto que passamos a ser mais infelizes do que realmente
somos, passamos a viver num mundo de ilusões e sem rumo. É
tão singelo, mas é verdade, é aqui que está
o segredo da Felicidade Humana. É aqui que está a nossa maior
fonte de alegria e plenitude. Sim, nos nossos filhos.
Se soubermos acarinhar, educar com doçura, dizendo
não quando é preciso, e acima de tudo, desculpando, aceitando
e tolerando os momentos menos bons da Vida, estamos a criar rebentos viçosos
e moralmente bem formados. A Família é o elo mais forte do
animal Homem, mais do que o próprio ventre materno. É na
força da união da Família, Pai, Mãe e Filhos
que se encontra a estabilidade para podermos propagar a espécie
em harmonia com a natureza e com os outros semelhantes. Sem uma Família
unida não existe grande futuro para a humanidade, e jamais a felicidade
irá preencher os corações vindouros, pois esses nunca
irão perceber o significado dessa palavra mágica, Família,
pois nunca a tiveram.
Fomos almoçar, por mal dos nossos pecados. Horas
mais tarde, entrámos numa outra aeronave mais pequena, para seis
passageiros: meu pai, minha mãe, eu, meu irmão, o piloto
e um outro homem. Com excepção do piloto, as nossas caras
passaram por todas as côres do arco-íris. Esta viagem foi
o fim da picada e acabou por ser o meu verdadeiro baptismo de Navegador
cibernauta. Em plena planície, os poços-de-ar eram tantos
que a pequena aeronave não fazia mais do que subir e descer vertiginosamente.
Cada vez que passávamos por cima de um zona de ar quente, portanto
com ar menos denso, o pequeno aparelho vinha por aí a baixo na brasa,
o estomâgo subia então até à boca, e começavam
as côres: branco, amarelo, verde, azul, ... por volta do lilás
o piloto percebia que era altura de puxar o manche (joystick?) com toda
a força para trás, para ganhar altitude. De repente, saíamos
daquela depressão e, aí iamos nós na pirisca a subir,
o coração vinha então para os pés... e novamente
as côres, mas em sentido contrário. Quando o piloto nos via
brancos como a cál, então empurrava o mache para a frente...
Claro que o piloto era um verdadeiro nabo, um 'desesperado',
e o tempo não ajudava em nada. Nem imagino se estivesse tempestade.
De nada me serviram os longos anos de experiente passageiro da Carris.
No meio daquela zonzeira toda, parece que fizemos uma
paragem. Não sei bem se para abastecimento de combustível,
ou para equilibrar as côres. O piloto lá deve ter achado que
estávamos sempre roxos. E isso não dava para ele saber se
devia subir ou descer. NICODALA.MZ*1 foi a aldeola escolhida para recuperar
o colorido.
As únicas vantagens desta última parte
da viagem foi percebermos que em vez do vermelho e do verde do trânsito
rodoviário, na aviação usam mais o lilás e
o branco. O laranja deve equivaler mais ao menos ao roxo. A outra vantagem
foi ficarmos a perceber a importância dos ligamentos e nervos, sem
eles tinhamos chegado peça a peça, ou seja osso a osso.
Multicolores, doridos até aos ossos, partidos
mas inteiros, foi assim que finalmente aterramos em INHAMBANE.MZ*1.
Depois de uns saltinhos de bailarina torpe e desajeitada,
lá acabou a pobre da aeronave por parar. Finalmente, os nossos corações
começaram a voltar ao ritmo normal.
"Obrigado meu Deus!" - Alguém disse dentro daquela
lata, e naquele momento percebi, mais uma vez, que Ele existe mesmo. Mentalmente
repeti aquela frase vezes sem conta... Tal como hoje, quando a alegria
e felicidade me invadem o espírito, depois de muitas e longas mágoas.
O dia estava quente, abafado mesmo. Embora junto ao mar,
nem uma simple brisa se fazia sentir. Como era possível?
A famelga estava já à nossa espera. Lá
estava o meu padrinho. O irmão de meu pai, meu ídolo de criança
e velho parceiro de 'patifarias' bem divertidas, tais como: 'Como esmagar
uma banana sem usar as mãos...', ou 'Teoria do choque de particulas
da bota versus carrinhos miniatura'.
"Outra vez beijos, e abraços. Bolas, esta gente não sabe fazer mais nada", comentei para com os meus
botões.
"Então que tal foi a viagem?" - Devem estar a
gozar comigo? A resposta parecia-me óbvia, pela côr esverdeada
que todos tinhamos. Mas, nenhum de nós teve coragem para emitir
um piu sequer sobre o assunto. Era a honra da Família que estava
em jogo, e isso era sagrado.
Pior do que tudo é que também não dava
para dizer: "Estou farto e quero ir-me embora..." - Isso seria o fim, pois era preciso repetir tudo de novo mas agora para o regresso...
(... CONTINUA ...)
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