<= Menu FitiniZini.com
MZ*11

FitiniZini.Com

A Grande Viagem

* por Dr. Fortunato Da COSTA

A Partida

A minha aventura fantástica no Mundo MZ*1 - ou seja a minha primeira ida a Moçambique - começou naquela bela manhã na cidade de Lisboa, tinha eu onze anos em 1970. Fui com a minha mãe e com o meu irmão apanhar vacinas. Aquelas torturas eram necessárias. Sem elas podiamos ficar com malária, febre amarela, febre tifóide, ...

Foi uma experiência sem graça. Berrámos que nos fartámos. E já o médico dizia: "Minha senhora, leve-os já para MZ*1... eles lá podem abrir as goelas à vontade". Por fim, como prémio de tanto sofrimento, recebemos um livrete amarelo cada um - o livrete das vacinas - deviam era ter-nos dado, pelo menos, uma enciclopédia.

O certo é que alguns dias depois recebemos permissão das autoridades para partir. Foi emocionante, finalmente entrámos naquela magnífica Aeronave que nos iria levar naquela grande viagem.

Realmente ser Navegador, real ou virtual, é um pouco aquilo que todos nós fazemos durante a Vida. E foi dentro desta nave que começou a minha carreira de Navegador, mas só muitos anos mais tarde vim a perceber isso.

"Mãmã quero fazer chichi!" - Esta célebre frase ecoou dentro daquele gigante tubo de aço, vezes sem conta. O meu irmão parecia que estava roto. E eu não podia deixá-lo sozinho. De maneira que cada vez que ele abria a boca, dez minutos depois abria eu. A minha mãe, uma bela Beirã, ia dando em doida. Só sei que por fim já não havia água nos sanitários, foi cómico à brava.

A trajectória seguida pela aeronave foi bastante linear e, no meu modesto entender de então, nada de anormal se passou. Para uma viagem entre dois Mundos, PT e MZ*1, até nem foi difícil. Claro, houve alguns abanões... mas para um experiente passageiro da Carris, a viagem foi mesmo bastante calma. Sobretudo foi agradável e até sensualmente excitante pois as miúdas de bordo, as hospedeiras, eram novinhas em folha e 'boas-como-o-milho'... É pena, pois já não podemos dizer o mesmo hoje em dia, eles estão sempre a renovar as aeronaves mas as hospedeiras são sempre as mesmas, e agora andam acompanhadas dos pais e dos maridos. Um dia destes têm de alargar os corredores para o pessoal de bordo poder andar de Cadeirinha-de-Rodas.

Comer? Bem o meu irmão não comeu nada. E eu comi tudo. "Nada se perde tudo se transforma?" Qual... tudo se aproveita!! Isso sim.

O breu da noite chegou mais rápido que o normal, mas finalmente, e no meio daquela excitação toda, lá conseguimos os três dormitar qualquer coisa.

Muitas horas de voo depois, e mais uns tantos solavancos, copos de água, chichis, e... sei lá mais o quê. Acabámos por aterrar numa vasta cidade, com casitas espaçadamente semeadas ao desbarato, numa planície sem fim. A cidade separava o Oceano Índico de uma floresta gigante, com árvores e vegetação impenetrável.

"Já chegámos a MZ*1?" - Perguntei à minha mãe. E, como não podia deixar de ser, do outro lado ouviu-se o "eco" emitido pelo meu irmão - "Mãmã, já chegámos a MZ*1?"

"Sim meus amores... chegámos, e o Papá já deve estar à nossa espera." - Disse minha Mãe em som 'estereofónico', com o arregalar de olhos e o acenar de cabeça tão característico nela.

Nós os dois, feitos loucos, quase que saíamos pela janela, tipo escotilha de navio...

Partidos mas inteiros

O dia estava quente, abafado mesmo. Embora junto ao mar, nem uma simples brisa oceânica soprava. O astro solar brilhava intensamente, e não se via uma nuvem no céu. A luz do dia era tão forte que tudo era branco naquela bela cidade de BEIRA.MZ*1. Iria precisar de algum tempo para me adaptar àquele sol.

Lá estava o meu Pai, feliz. Todos nos abraçámos com emoção. Uma lágrima aqui e ali, entre gargalhadas e sorrisos de satisfação... abraços e beijos sem parar. A alegria era tanta que até doia.

É quando um Pai, ou uma Mãe, partem para longe da Família que compreendemos que a infelicidade também existe. Pior do que isso é quando a própria Famíla se quebra: Pai para um lado e a Mãe para o outro. Nessas situações, o egoísmo e o orgulho dos Pais são tão grandes que nem percebem que estão a dar a primeira grande lição de infelicidade aos filhos. Só muitos anos mais tarde os 'tarados' se apercebem da pobre lição de vida que deram aos frutos do seu desvaneio erótico. Só que aí já é tarde, o tempo não pára e não dá segundas oportunidades. Mas, será que as pessoas já se esqueceram do verdadeiro sentido da Vida? E o meu caro leitor, por acaso sabe qual a resposta? É tão simples: Vivemos simplesmente para gerar mais Vida! Sim, manter a espécie humana é a principal razão da nossa existência. Tudo o resto é secundário. E é quando nos esquecemos deste simples facto que passamos a ser mais infelizes do que realmente somos, passamos a viver num mundo de ilusões e sem rumo. É tão singelo, mas é verdade, é aqui que está o segredo da Felicidade Humana. É aqui que está a nossa maior fonte de alegria e plenitude. Sim, nos nossos filhos.

Se soubermos acarinhar, educar com doçura, dizendo não quando é preciso, e acima de tudo, desculpando, aceitando e tolerando os momentos menos bons da Vida, estamos a criar rebentos viçosos e moralmente bem formados. A Família é o elo mais forte do animal Homem, mais do que o próprio ventre materno. É na força da união da Família, Pai, Mãe e Filhos que se encontra a estabilidade para podermos propagar a espécie em harmonia com a natureza e com os outros semelhantes. Sem uma Família unida não existe grande futuro para a humanidade, e jamais a felicidade irá preencher os corações vindouros, pois esses nunca irão perceber o significado dessa palavra mágica, Família, pois nunca a tiveram.

Fomos almoçar, por mal dos nossos pecados. Horas mais tarde, entrámos numa outra aeronave mais pequena, para seis passageiros: meu pai, minha mãe, eu, meu irmão, o piloto e um outro homem. Com excepção do piloto, as nossas caras passaram por todas as côres do arco-íris. Esta viagem foi o fim da picada e acabou por ser o meu verdadeiro baptismo de Navegador cibernauta. Em plena planície, os poços-de-ar eram tantos que a pequena aeronave não fazia mais do que subir e descer vertiginosamente. Cada vez que passávamos por cima de um zona de ar quente, portanto com ar menos denso, o pequeno aparelho vinha por aí a baixo na brasa, o estomâgo subia então até à boca, e começavam as côres: branco, amarelo, verde, azul, ... por volta do lilás o piloto percebia que era altura de puxar o manche (joystick?) com toda a força para trás, para ganhar altitude. De repente, saíamos daquela depressão e, aí iamos nós na pirisca a subir, o coração vinha então para os pés... e novamente as côres, mas em sentido contrário. Quando o piloto nos via brancos como a cál, então empurrava o mache para a frente...

Claro que o piloto era um verdadeiro nabo, um 'desesperado', e o tempo não ajudava em nada. Nem imagino se estivesse tempestade. De nada me serviram os longos anos de experiente passageiro da Carris.

No meio daquela zonzeira toda, parece que fizemos uma paragem. Não sei bem se para abastecimento de combustível, ou para equilibrar as côres. O piloto lá deve ter achado que estávamos sempre roxos. E isso não dava para ele saber se devia subir ou descer. NICODALA.MZ*1 foi a aldeola escolhida para recuperar o colorido.

As únicas vantagens desta última parte da viagem foi percebermos que em vez do vermelho e do verde do trânsito rodoviário, na aviação usam mais o lilás e o branco. O laranja deve equivaler mais ao menos ao roxo. A outra vantagem foi ficarmos a perceber a importância dos ligamentos e nervos, sem eles tinhamos chegado peça a peça, ou seja osso a osso.

Multicolores, doridos até aos ossos, partidos mas inteiros, foi assim que finalmente aterramos em INHAMBANE.MZ*1.

Finalmente, Terra Firme

Depois de uns saltinhos de bailarina torpe e desajeitada, lá acabou a pobre da aeronave por parar. Finalmente, os nossos corações começaram a voltar ao ritmo normal.

"Obrigado meu Deus!" - Alguém disse dentro daquela lata, e naquele momento percebi, mais uma vez, que Ele existe mesmo. Mentalmente repeti aquela frase vezes sem conta... Tal como hoje, quando a alegria e felicidade me invadem o espírito, depois de muitas e longas mágoas.

O dia estava quente, abafado mesmo. Embora junto ao mar, nem uma simple brisa se fazia sentir. Como era possível?

A famelga estava já à nossa espera. Lá estava o meu padrinho. O irmão de meu pai, meu ídolo de criança e velho parceiro de 'patifarias' bem divertidas, tais como: 'Como esmagar uma banana sem usar as mãos...', ou 'Teoria do choque de particulas da bota versus carrinhos miniatura'.

"Outra vez beijos, e abraços. Bolas, esta gente não sabe fazer mais nada", comentei para com os meus botões.

"Então que tal foi a viagem?" - Devem estar a gozar comigo? A resposta parecia-me óbvia, pela côr esverdeada que todos tinhamos. Mas, nenhum de nós teve coragem para emitir um piu sequer sobre o assunto. Era a honra da Família que estava em jogo, e isso era sagrado.

Pior do que tudo é que também não dava para dizer: "Estou farto e quero ir-me embora..." - Isso seria o fim, pois era preciso repetir tudo de novo mas agora para o regresso...

(... CONTINUA ...)

Inhambane, Moçambique, 1970

Todos os Direitos de Propriedade Intelectual pertencem a:

Dr. Fortunato Da COSTA
EMail: fitini@fitini.net

Por favor, AJUDE-NOS a continuar
estes Artigos para a sua Leitura Gratuita:

(*) Dr. Fortunato Da COSTA, Mestre em Estudos Europeus pelo Instituto de Estudos Europeus, Licenciado em Administração Pública e Bacharel em Engenharia é Consultor Internacional Perito em Arquitectura Organizacional e Sistemas de Informação, Empresário, Professor, Formador, Orador em Palestras e Conferências, Escritor, Director da Fitini.NET ConsultinG, podendo ser contactado pelo e-mail: fitini@fitini.net. Visite: Fitini.NET ConsultinG

É Proíbido utilizar qualquer cópia, ou qualquer parte, deste documento sem autorização por escrito
Direitos de Autor totalmente protegidas Mundialmente pela Lei, Desde 2006


InMental-Institute.com Psicologia Hipnoterapia
Sonoterapia Apneiaterapia
...
InMental-Institute.com
PORTUGAL



[ Menu FitiniZini.com ]
?


Games Shopping Travel Health Fashion Consulting News Search Casino

E-Mail => fitini@fitinizini.com

Fitini.NET / FitiniZini.com i-Portal
O i-Portal de Humanos Inteligentes
Desde 2000, Todos os Direitos e Marcas Reservados