A Vala
Estava um dia sêco. Eram duas da tarde e o sol a pino não dava hipóteses. Eramos para aí uns dez ou doze. Quase todos em tronco nú, de calções, chinelos ou sandálias, outros menos afortunados só com as solas que Deus nos deu. Não havia mesmo nada para fazer, o calor era tanto que até as ideias se tinham evaporado. De pança cheia, lá estavamos nós sentados no quintal do Cór-Cór oTerrível. Que por sinal era o vizinho do JOCA, Jóquinha para a mãe dele, e JO para os amigos-de-sangue como eu.
As casas eram geminadas, duas vivendas de rés-de-chão
onde os Pais do JO e do Cór-Cór tinham as suas respectivas
Cantinas. As entradas eram pelo lado da estrada, e nas traseiras eram os
quintais, virados para as Tembas, aldeolas de cabanas de colmo onde viviam
os nativos menos favorecidos.
Havia moscas, moscardos, mosquitos por todo o lado. Eram
verdes, azuladas, metalizadas, vermelhas, amarelas, e eram aos milhares.
Todos nós sabiamos porquê!! Mas ninguém arriscava uma
palavra... talvez ninguém fosse capaz de abrir a boca. Era isso!
O cheiro nauseabundo que pairava no ar, até nos impedia de abrir
a boca. Porque ali era mesmo: Ou entrava mosca, ou...
A catástrofe era total, e o cheiro insuportável,
sentia-se a kilómetros. Mas ninguém arrredava pé...
afinal eramos Homens, ou não? O respeito pelo temível Cór-Cór
obrigáva-nos a aguentar aquele tremendo cheiro imundo a merda apodrecida...
Exacto! A fossa da casa do Cór-Cór estava entupida. E o pai
dele, num acto de desespero total para resolver o problema, esventrou a
terra e pôs a nú aquela enorme fossa escura, A VALA.
Cheia de uma pasta brilhante e amolecida, o castanho
escuro e o amarelo misturavam-se com o preto, entre uma aguada, aqui e
ali. Um buraco circular com cerca de três por quatro metros, com
para aí um de fundo. Onde as moscas multicolores e felizes, sentiam
ter ganho o paraíso. Para nós aquilo era pior que o inferno,
mas todos tentavam mostrar a maior das descontrações.
E lá estavamos nós corajosamente, em suplício
os Doze Cavaleiros da 'Vala Redonda', em meditação. Não
sei bem se a contar as moscas, ou a ver qual era o primeiro a pifar, redondo
por terra.
"Já sei! Tive uma ideia maningue porreira!!" -
Exclamou o Terrível Cór-Cór, que num salto de grande
agilidade se pôs em pé, e que com os olhos brilhantes nos
fitava, por ter tido uma ideia genial. Provavelmente a ideia do mês.
E já sabiamos, ia sobrar para todos, ou alinhávamos ou levávamos
porrada...
"Aposto que sou capaz de saltar por cima da fossa!!!" - Berrou o Cór-Cór com um esgar de vitória antecipada. Olhei para o JO que imediatamente entrou em sintonia telepática comigo. Os nossos olhinhos sorriram por uns segundos, a princípio, mas depois... foram ficando cada vez mais sérios, até que ficaram estáticos e vazios. Pois, se o Cór-Cór ia saltar a fossa de merda, a seguir tinhamos de ir nós!!
"Aposto que não és capaz!" - Ouviu-se uma voz não sei de onde. Estávamos todos tramados, o desafio estava lançado... não havia nada a fazer.
Cór-Cór iniciou imediatamente os exercícios
de aquecimento. Não havia tempo a perder, pois o torneio ia ser
longo.
"Bom malta, tenho de ir levar a minha bicla à
oficina." - Ouviu-se outra voz, mas muito fininha.
"Vais depois!!!" - Finalizou de vez o Terrível
Cór-Cór.
"Afastem-se!!" - E o Cór-Cór cheio de coragem
afastou-se para aí uns dez metros da vala.
Todos nós formámos como que um corredor
junto à fossa. Um de nós ficou de contar até três.
O silêncio era fúnebre. Só o zumbido
das moscas, cortava o arfar das nossas respirações...
Três horas da tarde.
"UM!... DOIS!!... TRÊS!!!" - Ouviu-se a partida.
E... aí o Cór-Cór começou a correr velozmente
os dez metros.
Ele é mesmo um atleta incrível, pensavamos
todos. Que agilidade. Que leveza.
Cór-Cór colocou o seu último pé exactamente um milímetro antes do buraco... e então esvoaçou.
Tal como um pássaro gigante que se lança num precipício, com o rosto contorcido por um esforço inumano, Cór-Cór iniciou o seu tremendo voo que iria levar longos segundos. Um milagre estava prestes a acontecer... o pé do Cór-Cór iniciou a descida para o outro lado da vala.
Atenção! Vai aterrar... o pé do Cór-Cór tocou vitoriosamente a outra margem do 'inferno'...
Mas, ... cuidado!... O delicado pézinho do Cór-Cór
que tão bem tocou o outro lado fez a borda do buraco desmoronar-se...
e sucedeu o que inesperado (ou esperado?): O valente Cór-Cór
desapareceu totalmente dentro daquele infernal buraco de trampa!!
(... CONTINUA ...)
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