O JOCA
Estava um tórrido dia de sol, a pique mesmo. Quase horas de almoço e lá regressavam a casa os miúdos que vinham da escola primária. Um deles muito triste vinha com a sacola às costas e, na mão em vez de na cabeça, levava um chapéuzinho.
– " Oh Joca!... Com tanto sol, porque é que não pôes o chapéu na cabeça filho? " – Diz-lhe a mãe, lá da porta do quintal.
– " Mãããe o chapéu não entra... " – exclama o Joca num lamento de resignação que só ele e eu entendemos.
Este jovem, alguns anos mais tarde, tornou-se no meu grande irmão e amigo de peito para todo o sempre, o JOCA, ou Joquinha para a meninas mais giraças. Foi no Liceu de Quelimane que nos encontrámos pela primeira vez e ficou para todo o sempre, esta espectacular amizade.
Pois bem... vamos ao que interessa...
A FREIRINHA DE FÍSICO-QUÍMICA
O Joca e eu andávamos sempre na boa vida. Jogávamos basquetebol no Benfica de Quelimane e nos tempos livres, andávamos atrás das miúdas lá no Liceu.
Tinhamos uma professora de Físico-Química que era também Freira lá numa congregação católica em Quelimane. Ela de pé era mais pequenina que nós sentados nas cadeiras da sala... Preparava as aulas o melhor que sabia e podia, mas a bondade dela não era suficiente para impôr o respeito e a disciplina num grupo de reguilas onde eu era o chefe de turma e todos os meus trinta colegas (eles e elas) estávamos sempre de acordo para o que desse e viesse...
Um certo dia, a professorinha decidiu falar da densidade dos elementos. E, assim, encheu um copo com água e... muito devagarinho deitou lá para dentro uma pequena esfera de aço... claro que a esfera foi logo para o fundo do copo... e foi dizendo com um ar de grande sabedoria:
– " Estão a ver? Como o aço é mais denso que a água, a esfera vai para o fundo do copo! ".
Eu maroto, como sempre... comecei a pensar em como contrariar tanta sapiência e bloquear a aula. Levantei-me e argumentei:
– " Para o fundo? Não-Nãão! A esfera ficou mas é a boiar... " – Olhando e acenando afirmativamente para os meus colegas.
– " A esfera está a boiar, certo pessoal?! " – Ao que os meus colegas todos em uníssono confirmaram.
Bem... foi o fim daquela aula. A professora a dizer que a esfera estava no fundo e... trinta alunos a dizer que não e que estava a boiar.
O tempo foi passando e nada... até que a freirinha, sem mais saber o que fazer, colocou-se de joelhos e de maõs juntas, virada para mim disse:
– " Fortunato, por favor, deixa-me dar a aula... " – Bem... eu aí percebi que a brincadeira já ia longe de mais e parei, dizendo:
– " Certo, a esfera está a boiar no fundo do copo! " – E lá continuou então a freirinha a poder dar a sua aula de físico-química sobre a densidade.
Num outro dia... estava o JOCA inspirado. E dessa vez era sobre electricidade e magnetismo. Mais precisamente sobre os campos magnéticos, a força magnética (força de Lorentz) criados pela circulação de electricidade numa bobine.
Existe uma regra chamada regra-da-mão-direita que indica o sentido da força magnética em função do sentido da circulação da corrente eléctrica e, também, existe essa mesma regra explicada pela posição do corpo humano e a posição dos braços...
O JOCA lembrou-se de fazer uma pergunta sobre o assunto:
– " Oh Stora! Eu tenho uma dúvida, eu estava deitado no sofá a estudar isto e, na altura percebi, mas agora estou baralhado. Posso explicar o que fiz? " – A professorinha, olhou para ele, acreditou nele e disse: " Sim, mostra lá então a tua dúvida... ".
O JOCA não faz mais nada... atira-se para o chão, vira-se de barriga para cima e começa a bracejar e a espernear, movendo o braços ao mesmo tempo que ia dizendo: " Assim? Assim? Assim? ".
A professorinha e os trinta alunos estiveram para ali cinco minutos a olhar para ele... a ver se percebiamos qual era a tamanha dúvida. Até que então o JOCA não resistiu mais e explodiu a rir.
– " Hi! Hi! Hi! Hi! Hi!... "
– " RUA! " – E lá foi o JOCA dar uma voltinha ao bilhar-grande...
E, finalmente... num teste de Física: sobre a teoria atómica, os átomos, os electrões, e outros palavrões... surgiu uma pergunta para a qual eu não sabia, simplesmente, a resposta... Então, comecei a divagar. Escrevi, escrevi, ... mas aquilo que escrevi tinha tanta racionalidade que a pobre da freira-professorinha não conseguia decidir se eu estava certo ou errado.
Sabem o que aconteceu? Nunca me corrigiu o teste nem me deu nota sobre aquele exame escrito. Dizia-me sempre que ainda não tinha corrigido o meu teste e que não sabia como fazer... e nunca me deu a nota daquele exame escrita.
Parecida com esta só a de um dos meus outros amigos da turma, o Miguel Angelo Jardim que foi para um certo teste de história sem ter estudado nada... então do que se lembrou ele...
Teve a brilhante ideia de não responder a nenhuma pergunta e... limitou-se a descrever como narrador a famosa Batalha de Aljubarrota... escreveu sem parar durante todo o teste... um verdadeiro guerreiro da "Pena"...
Sabem o que aconteceu?
A nossa bela professora de história deu-lhe 10, a nota positiva mínima (na alturas as notas iam de zero a vinte) e disse-lhe:
– " Miguel, dou-te a nota mínima porque a tua batalha estava fabulosamente bem escrita... mas para a próxima, se me fazes outra igual... LEVAS ZEEERO!!! " – Ah grande Miguel Jardim.
Eu e o Miguel também temos aventuras super engraçadas... um dia decidimos fugir de casa... ele porque o pai lhe queria chegar-a-roupa-ao-pêlo e eu porque a minha mãe me queria chegar-o-pêlo-à-roupa...
Andámos, andámos, andámos, ... pelas tembas, palhotas, coqueiros, mangueiras, capim, muito capim, ... até que lá para o final da tarde já cansados e com fome decidimos que a fuga tinha terminado e decidimos voltar para casa...
Hehehehe, bons velhos tempos... tempos que não voltam mais.
E quando o nosso professor de matemática, o eng. Ivo Alberto (um super professor) me deu 21 valores, sendo o máximo 20?!
Eu tivera vinte valores no último teste de matemática e no dia da correcção apareceu com um problema estrambólico para me desafiar e disse: " Se conseguires resolver este problema dou-te mais um valor... " – Eu resolvi e ele cumpriu, deu-me 21 valores.
Eih Meus Amigos e Amigas, se algum de vocês ler isto... mandem-me fotografias daqueles tempos incríveis que passámos juntos. Obrigado por tudo!
Escrevo isto em nossa memória, dos que já foram e dos que estão para ir... deixemos, para os outros, estas nossas parvoíces.
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Dr. Fortunato Da COSTA *
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(*) Dr. Fortunato Da COSTA, Mestre em Estudos Europeus pelo Instituto de Estudos Europeus, Licenciado em Administração Pública e Bacharel em Engenharia é Consultor Internacional Perito em Arquitectura Organizacional e Sistemas de Informação, Empresário, Professor, Formador, Orador em Palestras e Conferências, Escritor, Director da Fitini.NET ConsultinG, podendo ser contactado pelo e-mail: fitini@fitini.net. Visite: Fitini.NET ConsultinG
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